
Pedido

te peço
quando comigo
mais nada
que uma só coisa:
se abra
de coração
a umbigo.
palavra?
em silêncio
(quase audível)
deságua
sem pedido
em linhas tortas
esgota
se preciso.
Mãos ao alto!

Um grupo de jovens, imagino que projetos de missionários pentecostais, vêm em minha direção com aparelho nos dentes, gel no cabelo e camisa pólo branca, respirando fundo. É a hora da verdade, para os guris. Pelo jeito que o indivíduo do meio anda, é a sua vez de iniciar a conversa com um estranho.
“Estranho” talvez seja a melhor palavra para me definir, afinal de contas, o que faria tais jovens -com menos da metade da minha idade- atravessarem a rua para me aconselhar em um dia tão glorioso; um sábado de sol como esse? Havia tomado banho, estava vestido adequadamente e trazia uma boa porção de tranquilidade no organismo. Não sei o que pensar.
Venho lá eu, com certa descontração e compras à mão, pois acabo de sair do mercado. Percebo a aproximação dos garotos mas, na iminência da abordagem, os mesmo prendem o passo de forma desajeitada e trocam a direção, como o navio ao sinal de um redemoinho. Mudança súbita de planos, parecem ter desistido do “diálogo” e começam a ficar para trás.
Crianças que são, não contém o volume de uma rápida e honesta conversa entre si:
- Ah, mas agora era a sua vez de perder a vergonha. A gente já perdeu.
- …
- É!
Livre, sigo adiante e noto um adulto logo à frente, à paisana, com o mesmo uniforme dos menores. Deve ser o guia, o “irmão” mais velho, que brevemente repousa os olhos em mim. Lembrei daquelas crianças que pedem dinheiro enquanto o adulto fica isolado, à espreita. Leio a escrita e a insígnia estampadas no lado esquerdo do seu peito, confirmo as minhas suspeitas e sussuro articuladamente, favorecendo a leitura labial: ”tinha-que-ser…”.
Não recrimino a atividade: as pessoas fazem o que bem entendem, ou o que merecem. Mas não abro mão do relato; é uma homenagem ao mundo que vejo.
E o garoto lá, será que perdeu a vergonha? Se continuar desse jeito, não terá muito futuro no ramo. Pobre-diabo!
As aulas de Ética

Gosto muito dos retratos dessas aulas. Turma entediada, professor imperfeito. Tão crua quanto carne viva; é assim que a vida se expressa ali.
O homem provavelmente respira fundo para adentrar a sala, ainda mais profundo em dias como hoje, quentes e abafados, nos quais encontramo-nos feito panela de pressão no ápice do cozimento. Depois do tímido “boa tarde” -direcionado ao vento e a rostos desfocados- vem o ritual de apagar o quadro. O homem o faz lentamente, tem ali seus últimos momentos de recomposição. Depois de apagar até a última fagulha de giz possível, vira-se para a classe e começa a destrinchar o conteúdo. Logo, engrena.
As cabeças, ali, são todas jovens em se tratando de faixa etária. Mas a matéria física do cérebro já parece rija, entupida por mais ou menos duas décadas de nostalgias virais, angústias e também recados publicitários. Nestas cabeças, o professor tenta adentrar, mas sua habilidade é muito pequena. Ele não fala com a eloquência do Silvio Santos, nem tem a expressão facial de Ana Paula Padrão, e aí, torna-se difícil a sintonia. É mais provável que nós, como alunos, personifiquemos nossas próprias angústias naquela figura frágil de professor reprimido.
Desde a primeira aula, no entanto, eu me disponho a tentar lê-lo; eu e mais alguns. É um cara deveras complicado, que fala de coisas complicadas: Adorno, W. Benjamin, Marx e Marcuse, entre outros. O primeiro contato decente que tive com Aristóteles foi em sua aula. Comentei: “Nunca tinha lido, professor”. E tenho certeza que não fui o único.
Este professor de língua trôpega está sendo responsável por emitir conhecimentos que eu gostaria de ter recebido outrora, quando mais jovem. Provavelmente, não teria muitos motivos para sentir-me interessado, mas enfim, a nostalgia tem seu direito de ser inquestionável, fora de lógica. Fato é que nesta idade em que me considero na crista da onda, fico feliz de poder partilhar deste conteúdo tão útil e bem-vindo. Fico feliz em ver uma figura humana cansada e angustiada batalhando para transmitir o que absorveu no curso de sua vida acadêmica. É ali na frente das pessoas o momento de buscar reverberação para tudo aquilo que concluiu após centenas de leituras. Seja no valioso sorriso, curiosidade, ou no aconchego de um simples par de olhos fitos. Embora pouco hábil, o mestre é dotado de sabedoria: acolhe a manifestação arrogante, o escárnio, a superficialidade. Pega tudo e devolve neutro, ou em forma relevante para a discussão. Ao menos, tenta. No final das contas, talvez seja hábil.
Não me importa que ele esteja lecionando somente pelo dinheiro no fim do mês, porque é apenas uma sina da atualidade. Mais: acredito que o cara esqueça completamente desse detalhe nos momentos em que fala cuspindo, ou então, quando atropela a emissão das palavras, em virtude da grande empolgação que toma seu ser. Seus cacoetes lhe renderiam reprovação imediata em um teste para figurante, mas felizmente, ele está em outra. Encaro aquele ser humano como uma boa peça de música progressiva que, após algumas boas audições, torna-se uma experiência agradável. Este é meu professor na disciplina de Ética. Ao mesmo, votos de serenidade.
Fim de aula e a sala se esvazia em menos de dois minutos. Sobram apenas algumas pessoas, todas bem educadas, que logo se aninham em volta do aliviado professor e desembucham: estão com dúvidas. Querem saber sobre notas e número de faltas.
Números ainda falam bem alto.
Hoje é dia do lixeiro.

Quando criança, eu quis ser lixeiro.
Não era querer como profissão,
porque não sabia nada sobre dinheiro.
Só queria o direito de me pendurar no caminhão,
correr e gritar feito louco, daquele jeito.
Uma certa agonia me tomava quando via
o caminhão que simplesmente saía
e deixava o moço de verde para trás.
Mas ele corria sorrindo
e sempre conseguia pular para junto dos demais.
Hoje, sei que não é assim tão doce
Existem cacos de vidro, cachorro soltos, cheiro ruim
E pelo tamanho esforço, também as dores
Mas admiro e procuro com os olhos quando ouço o sino
o grito ou o latido: é o lixeiro que vem vindo!
Tem algo de bom em tudo isso,
que dinheiro não traz e nem todos querem ver
Não sei se liberdade, companheirismo
Ou poder quebrar um silêncio febril
Que nós, bem arrumados, acostumamos a ter.