
Como obra do acaso, Zucchero marcou um show na minha cidade, num domingo e a preços (até que) acessíveis. A coisa mais sensata que fiz por mim foi minimizar qualquer lógica mesquinha e reconhecer que era um dever ir. Eu não podia ter perdido a oportunidade de vê-lo. Ainda bem que não perdi, porque foi e está sendo delicioso compreender o que foram aqueles momentos.
Zucchero é um sujeito curioso que parece personagem de livro infantil. Misterioso, meio rabujo, sempre de cartola, fiel ao rei e que parece até guardar um saquinho com pó mágico no bolso para situações de emergência. Conheci sua figura numa propaganda de tevê insistente que promovia o álbum “Greatest Hits”, lá em 1996. Até no intervalo dos desenhos da manhã passavam aqueles 30 segundos mágicos que tocavam um pedacinho de Il Volo e outro de Menta e Rosmarino.
Mas agora é 2017. Ele estava com o corpo cansado, não sei se pela turnê, pela vida ou pelo dia em específico. Mas não demorou muito pra dizer no microfone: “Vocês estão autorizados a dançar”. A luz da platéia se acendeu, todos levantaram e esqueceram qualquer elegância. Foi muito bacana ver o que uma música como Vedo Nero faz com uma massa de adultos sérios. E que bacana, essa é uma música até que recente (2010), mas com a mesma vivacidade que me cativou em Il Volo ou Con Le Mani, muito mais antigas. Para mim, Zucchero é um artista de sorte, que continua em plena conexão com o que faz.
E falando em Il Volo, a performance dessa música foi especial. É um privilégio ouvir as texturas dos instrumentos e aquela voz. Se eu tivesse que resumir o que me faz gostar de sua obra, podia tocar essa música para explicar.
No último ato do show, a plateia resolve ignorar outro código de conduta: o dos assentos marcados. Quem estava disposto saiu correndo para ver mais um punhadinho de músicas, agora colados no palco e sem distrações. Zucchero passou cumprimentando a todos que estavam ali e até eu tive meu momento fanzoca e dei-lhe a mão. O que pude sentir naqueles segundos é que, pela análise da maciez da pele, a vida tem lhe tratado muito bem. Fico feliz!